Creme de espinafre
Em um jantar em família, noite com todos carrancudos por algum motivo que ainda não compreendi, eu quis creme de espinafre. Acabaram optando pelo de milho, que também adoro. Minha mãe então me prometeu fazer no almoço de hoje o tal creme que eu tanto desejava e mate caseiro, surgindo assim felicidade em mim. É aquela coisa que eu já escrevi por essas bandas, comida de mãe é comida de mãe, e eu sempre senti falta disso.
Acordei e fui ajuda-la com o almoço, aproveitei para aprender a fazer. Existem certas situações em que eu entro em um estado imaginativo absurdo, aonde eu viajo e penso todas as consequências do que eu aprendo e faço. É difícil de explicar, mas enquanto eu absorvia o modo de preparo, eu pensei que aquilo poderia vir a se tornar um prato que na minha fase adulta fosse relevante, como “ah, hoje tem o creme de espinafre da Stella!”, e que eu levarei para sempre esse conhecimento para minha vida.
Entre o creme de leite e o queijo, eu perguntei aonde minha mãe aprendeu a cozinhar. “Muito com sua tia, um tanto sozinha e várias coisas como seu pai. Esse prato em especial foi com ele” . Meu pai, este era chefe de cozinha e teve um bocado de restaurantes em botafogo. Um dos restaurantes era point gay, só uma observação inútil. Olhando para aquela gororoba borbulhante, pensei nele, coisa que eu nunca faço. Pensei que se o enredo de minha infância tivesse sido diferente, tinham tantas coisas que eu poderia ter aprendido com ele! Quem sabe eu poderia ter tido ideias legais e ajudado com os negócios dele, e poderia chamar meus amigos no meu aniversário para comer no restaurante do meu pai. Imaginei que poderia ser ele ali do meu lado, me falando que tem que esperar o espinafre secar para não ficar aguado. Imaginei todos os dias que eu poderia sair da aula e passar no restaurante dele para comer de graça, e ele me serviria alguma coisa especial todo dia e eu teria um prato favorito que só ele saberia fazer. Imaginei como seria minha relação com ele e a dos meus irmãos. Imaginei as risadas, as brigas, as viagens, o “nossa, nisso você é igualzinha ao seu pai! ” e tudo o que eu não vivi.
Agora resta me conter que nada disso vai ou passou perto de acontecer. E, por mais que eu tenha outras pessoas maravilhosas na minha família que me oferecem tudo o que me é necessário, agora e tão somente agora eu sinto falta de algo que somente idealizo em minha cabeça.
